SOBRE A ÁFRICA, ESCRAVIDÃO, ABOLIÇÃO E RACISMO EM SALA DE AULA. (I)
NOTAS PREPARATÓRIAS PARA A JORNADA MULTIDISCIPLINAR SERRA ACIMA Especial, 10 Anos – : Contribuição à formação de docentes do ensino básico das escolas de Chapada dos Guimarães/MT.
Vamos começar por DUAS palavras: ESCRAVIZADOS: Os indivíduos africanos, não nasceram escravos, foram escravizados. Não vieram ao Brasil, foram TRAZIDOS. Isto faz toda diferença para entendermos as condições de extrema violência física e psicológica a que foram expostos, quando arrancados de suas terras e famílias, em África, acorrentados uns aos outros e levados para os portos de embarques. De lá, foram entulhados em porões de navios mercantes e atravessados pelo Atlântico, até as colônias das Américas. Dentre as colonias americanas, o Brasil foi o maior importador de pessoas africanas para escravização.
A grande maioria dos africanos trazidos para o Brasil, foram sequestrados, comercializados em Angola. Conhecidos como os povos Bantos – Lembrando que, por Bantos, estamos falando de povos cujo grupo liguístico comum, era Banto, não significando, portanto, uma etnia. No mapa abaixo, procurei representar a linha divisória entre os povos sudaneses e bantos, com algumas localidades [portos] mais conhecidas no tráfico de africanos.

Aqueles que sobreviviam à lotação, má alimentação e condições básicas de higiene, inexistentes, e ao desespero que levou muitos à loucura e ao suicídio, eram desembarcados nos principais portos brasileiros: Bahia, Pernambuco, Pará, Rio de Janeiro. Colocados em armazésn preparados para amontoá-los novamente, aguardavam os compradores.
O Brasil se formou, enquanto nação, trazendo o estigma do abuso e da violência primeiro contra a população indígena e depois contra povos negros africanos, [não que os povos indígenas tenham passado a ter sua humanidade e seus direitos restituídos], submetendo-os à desumanização e trabalho forçado. Escravizados, em nome do conceito de “civilização”: branca, ocidental e católica. Estima-se que mais 4 milhões de homens, mulheres e crianças, foram trazidos FORÇOSAMENTE para o Brasil, entre os séculos XVII e XIX. No entanto, os números podem ser bem maiores. Para driblar a fiscalização, o pagamento de impostos de toda espécie, os escravistas maquiavam as informações, para menos. Do mercador, donos dos navios, aos senhores proprietários de escravizados.
Levados para as lavouras trabalhavam, em média, de 14 a 16 horas por dia. Não era rearo que, apesar do trabalho manual e excessivo, homens e mulheres e crianças, passassem fome. O alimento que lhes era enviado no campo, além de parco para o tanto de energias que dispendiam, era de péssima qualidade. Não raro também que, ao fim do dia, rondassem a casa grande, esmolando por comida, no extremo do cansaço e da fome. Estas pessoas, estiveram na base produtiva das lavouras de cana de açúcar e café, que elevou o Brasil como importante fornecedor do mercado europeu, durante todo esse período.
No entanto, não receberam o tratamento que lhes era devido, sofreram as mais devastadoras violências físicas e emocionais: do estupro das mulheres – por acreditarem, seus senhores, que a eles pertenciam e, portanto, podiam dispor de seus corpos, quando e como quizessem-; a separação das famílias por venda de um ou mais de seus membros; açoites que deixaram cicatrizes profundas, deformadoras, começando pela omoplata, quando eram marcados a ferro com as iniciais de seu proprietário e no rosto, nas costas, como castigo. Todo castigo previa um limite máximo que pudessem aguentar sem morrer. A morte de um escravizado era prejuizo para seus proprietários. Mas os mais ricos, antes das primeiras leis de emancipação, não se preocupavam muito com esta questão. Mais tarde é que maneiraram um pouco, quando um escravizado passou a custar mais caro, no mercado clandestino.

A foto acima é de Peter, escravizado americano e as cicatrizes de açoites brutais e contínuos. Foi mostrada pela primeira vez em 1863 e chocou muita gente que não tinha conhecimento das atrocidades cometidas pelos senhores. Ela mostra um escravizado dos estados Unidos, mas no Brasil, não foi diferente. De açoites brutais, à mascaras de folha de flandres tapando o rosto; ganchos de ferro em pontas no pescoço, com os quais tinham que andar pelas ruas, trabalhar e dormir. Marcas no rosto com a palavra “fujão”, por exemplo, ou “cativo”, tatuadas com ferro em brasa, tal como marcavam seus animais. A lei da pena de morte por enforcameno, exclusiva para escravizados, só deixou de existir anos após a abolição, apesar de já em desuso, poucos anos antes da abolição*

Título da obra acima: Escravo sendo castigado (no Brasil). Jean Baptiste Debret (Séc. XIX). Em: https://www.conhecer.org.br/enciclop/2013a/humanas/Tecnicas%20da%20Tortura.pdf

Em:https://www.brasilianaiconografica.art.br/artigos/20231/tortura-e-castigo-os-mecanismos-da-repressao-escravista
Título da obra acima: Negro sendo açoitado no Rio de Janeiro – desenho de Charlie Landesser – 1791. [Observemos que era muito comum outro escravizado ser obrigado a participar dos açoites ou ser, ele mesmo, o algoz].
Nos estados Unidos a abolição da escravatura foi proclamada em 1865. Não agradou, como era esperado, os escravistas do sul do país. – Abraham Lincoln, o presidente que proclamou a abolição foi assassinado por esta decisão considerada absurda, pelos sulistas. Como sabemos, no Brasil a abolição chegou muito tarde, sendo a última a ser proclamada na América Latina, em maio de 1888.
Mato Grosso concentrou grande parte dos escravizados direcionados para as lavras mineradoras, após um declínio da mineração em Minas Gerais e a descoberta do ouro às margens do rio Coxipó em 1718.
A então freguesia que se formou em volta da Missão Jesuítica de Santana do Sacramento, grande parte do século XVIII e primeira metade do XIX, reuniu o maior número de escravizados do Distrito de Cuiabá. O motivo foi a concentração de engenhos de cana de açucar para fabricação de aguardente e açúcar e as plantações de milho, para farinha. Por sua alta produtividade, era considerada o Celeiro da Província. A busca por novos veios de outro ou diamante, levou os exploradores a subirem serra acima e se alojarem na região, os descobrindo nos principais rios: Manso, Rio da Casca e Rio Quilombo. Em suas margens, deram início às fazendas de lavouras de subsistência e em seguida, aos engenhos, para o comércio regional.
Na próxima nota (II), vamos falar um pouco sobre o processo gradual de emancipação e a abolição, no Brasil. Na Nota (III), vamos falar dos resultados práticos na vida de homens, mulheres e crianças libertos, e verificar se encontramos algumas respostas para o racismo, no Brasil.
Na nota (IV) e última, vamos tratar de como os docentes do ensino básico de Chapada dos Guimarães, poderão participar da JORNADA MULTIDISCIPLINAR SERRA ACIMA – Especial, 10 Anos, anunciar a data e a programação. Desde já, informando que as vagas serão limitadas em 100, assim dividias: 50 para docentes das escolas da área rural e 50 para escolas urbanas. Serão gratuitas e devem ser feitas junto da coordenadoria pedagógica de sua escola ou pelo endereço de email que será dispobilizado aqui, após confirmação e publicação da Nota (IV).
Abraço e até a próxima.
