Lançamentos: “Memórias Kilombolas” e “Paixão da Alma” tratam da história dos quilombos de Mato Grosso, entre resistência e suicídio

Em 05 de maio, a Câmara Municipal de Chapada dos Guimarães (MT) recebeu o lançamento dos livros Memórias Kilombolas: Os Kilombos Angolanos nos Quilombos do Brasil, de Amélia Alves, e o Paixão da Alma: O Suicídio de Cativos em Cuiabá (18854-1888), de Bruno Pinheiro Guimarães, ambos editados pela EdUFMT, em parceria com a editora Carlini & Caniato. O evento também contou com a apresentação de dança africana do Grupo Kunta Kinté, de Cuiabá. Leia aqui sobre o livro do Professor Bruno Guimarães e, a seguir, mais sobre o livro da Historiadora Amélia Alves, Diretora do Instituto de Estudos Socioculturais (IESC).

Este slideshow necessita de JavaScript.

MEMÓRIAS KILOMBOLAS: Os Kilombos angolanos nos Quilombos do Brasil

Por Amélia Alves*

Memórias Kilombolas começou como um artigo para um congresso. Decidi ampliar pouco mais as pesquisas, acrescentar alguns mapas que me pareceram importantes e elucidativos, e oferece-las como um suporte extra aos professores e estudantes, ao público geral, que preza pela revisão de discursos engessados e, muitas vezes, equivocados. Procurei desmistificar o que pareciam “verdades” reproduzidas sem pesquisas, sem análises sobre a matriz africana das lideranças na motivação, constituição e administração dos quilombos.

O livro está longe da pretensão de esgotar o tema, ao contrário, nele procurei instigar o interesse nas pesquisas, indicando fontes primárias e secundárias, isto é, obras já produzidas anteriormente sobre vários quilombos pelo Brasil afora e que pudessem nos oferecer novos olhares; documentos oficiais e oficiosos e manuscritos originais de arquivos do Brasil e de Portugal. Como todos os outros trabalhos sobre a temática das audaciosas e perigosas resistências à escravização como os quilombos, percebemos ser um árduo trabalho de garimpo.

São fragmentadas as fontes, gerando assim, controvertidas análises históricas. São tendenciosas, na medida em que contam os feitos dos governos e seus soldados preocupados em garantir junto à população, o seu pseudo controle. São nulos os registros das vozes dos líderes. Não podia ser diferente. Mas, pudemos “ouvi-las” através das vozes de aquilombados, dos traidores e dos sobreviventes dos massacres. Pudemos ouvir os cantares femininos nas lavouras, os mujimbos (notícias), antecipando a proximidade dos soldados e os tambores africanos, nas práticas de guerra enfrentando os capitães do mato. Pudemos ouvi-las, no que os governos silenciaram, mentiram e deturparam sobre suas ações de desmantelamento dos quilombos.

amelia

Não tive a intenção de que os afrodescendentes compreendessem sua presença histórica, a história das ancestralidades africanas revoltadas e guerreiras na formação do Brasil, pois isso eles sabem muito bem. Escrevi, não para lembrar de que jamais assumiram, ainda que no pensamento, que era livre, o que se quis fazer deles, pois sobre isso, nunca tiveram dúvida alguma. Não escrevi para lembrar dos feridos em chagas abertas no corpo e na alma, irremediáveis para milhares deles. Mas para lembrar aqueles que impuseram, à custa da morte dignificada, seu SER, no mundo. Pessoas que morreram defendendo um mundo à parte, independente, de claras reminiscências guerreiras angolanas, nas barbas do mundo senhorial tirando, deste mesmo mundo, o que fosse possível, para construir o seu próprio.

Esta é a mensagem que quero deixar com este livro, ao debulhar ainda que com as dificuldades documentais inerentes aos registros sobre a classe representativa do particular, no geral do colonialismo escravista. Ou seja, dos que resistiram à tentativa de amputação de sua identidade africana, angolana.

Por fim, homenagear as populações das Comunidades Remanescentes de Quilombos hoje, que estiveram recentemente ameaçadas pela revisão do decreto que as reconheceu como guardiães de todo este processo de luta pela vida, pela liberdade, e que não são resultantes de “permissões” de ocupação de um espaço principalmente ‘a seguir à Lei Aurea de 1888, que relegou à própria sorte os libertos, mas conquistas inspiradas em seus antepassados.

KILOMBO: Angola

Da língua banta/Ovimbundo: O-CILOMBO, (lê-se OTCHILOMBO). Origem no alto Kuanza (rio). Acampamento formado para a circuncisão e formação militar/guerreira dos rapazes, preparando-os para a vida adulta e para as guerras.

IMBANGALA ou Jaga — significado: MVangala, ou Mbangala = valente.

KILOMBO IMBANGALA:

Conjunto de acampamentos de guerreiros formados primeiramente por dissidentes dos grupos étnicos originais Congo-angolanos. Eram tributários do acampamento central, administrativo e militar. Nômades, a princípio.

Transformam-se, nos finais do século XVII e início do XVIII, em diferentes reinos, retomando modelo anterior de organização.

Exemplos de reinos que desde este período compõem as divisões administrativas em Angola: Kassange, Bié, Huambo, Kaconda.

QUILOMBO: Brasil

Denominação de origem angolana para acampamentos de escravizados fugitivos. Organização política, militar e econômica, independente. Os mais destacados na obra:

PALMARES

Período: Século XVI ao final do século XVII. – Por volta de 1580 a 1695.

Localização: Serra da Barriga, Pernambuco. Hoje Alagoas.

Divisão dos acampamentos: Cerca Real do Macaco e Subupira.

População: Informações controversas – entre 1500 a 2000 pessoas na época da invasão fatídica e suicídio do então líder.

Administração política: Parlamento.

Líder ao fim do Quilombo: Zumbi. Título angolano – N’Zumbi ou N’Zambi = aquele que possuía o poder de se comunicar com forças ancestrais. Era crioulo e sobrinho do africano Ganga Zumba. Título angolano para o Mais Velho, ou o chefe.

QUARITERÉ

Período: Final do século XVII, ou 1730 (quando se faz notar) até 1795.

Localização: Matas próximas a Vila Bela da Santíssima Trindade, às margens do rio Galera – Mato Grosso. Local chamado, após o desmantelamento, de Vila Carlota.

Divisão: Acampamentos dispersos não identificados pelas autoridades como no Palmares, sendo o principal, onde se concentrava a administração geral, de Quilombo Grande.

Política: Parlamento.

Líder ao fim do Quilombo: Teresa, de Benguela.


*Amélia Alves é Doutora em História pela Universidade do Porto, Portugal, e tem Mestrado e Bacharelado em História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). É pesquisadora e dirige o Instituto de Estudos Socioculturais (IESC).